Para águas instáveis, operação exemplar

  Cerquilho é uma cidade de 50 mil habitantes no interior de São Paulo. Mesmo considerando seu porte pequeno, os índices atingidos pelo município impressionam: praticamente 100% da cidade abastecida com água tratada pela ETA e 100% do esgoto captado e tratado. Para se ter uma referência comparativa desse desempenho, pode-se utilizar, por exemplo, o Ranking ABES da Universalização do Saneamento, realizado pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes).

O Ranking da edição 2019 reuniu 1.868 municípios, representando 68% da população do país.   O município de Cerquilho ficou entre os 52 municípios de pequeno e médio porte que alcançaram a categoria máxima: Rumo à Universalização, pontuando 493,84. A cidade está dentro da pequena parcela de 2,78% que pontuaram acima de 489. 

Temos que fazer bem feito porque é o dinheiro do povo sendo depositado na confiança na gestão pública. Tentamos sempre fazer o melhor e sermos transparentes” – Marcos Benati

 

Se em questões técnicas e operacionais Cerquilho é um exemplo ao Brasil de eficiência no saneamento básico, é porque, antes de tudo, existem princípios que regem o sucesso dessas operações:  “Temos que fazer bem feito porque é o dinheiro do povo sendo depositado na confiança na gestão pública. Tentamos sempre fazer o melhor e sermos transparentes” pontuou o químico Marcos Benati, chefe do tratamento de água do SAAE de Cerquilho (SP) durante uma live realizada em abril à convite da Hidrogeron. 

Rio Sorocaba: durante o período de chuvas a turbidez pode chagar a 1.500. Durante a estiagem, aumenta a concentração de poluentes.

 

Poucos mananciais e água instável

A área do município de Cerquilho é pequena, com poucos mananciais e recursos hídricos subterrâneos escassos. A captação é feita exclusivamente do rio Sorocaba, cujas águas são muito instáveis. Durante o período de chuvas a turbidez pode variar de 15 a 1500. Em períodos de estiagem, aumenta a concentração de poluentes e carga orgânica na água da captação, e a presença de nitrogênio e fósforo resulta na floração excessiva de algas e plantas aquáticas.

Cerquilho, no entanto, não cruzou os braços diante dos grandes obstáculos de captar águas que exigem tratamento complexo e entregar água de qualidade para a população. O desafio revelou os talentos da equipe da ETA local, e o principal deles, além da resiliência, ou até por causa dela, é a disposição de pesquisar, experimentar, e conhecer. Cerquilho não teve medo de evoluir até atingir a excelência, com muito trabalho. 

“Fizemos testes com oxidantes à base de peróxido de hidrogênio (água oxigenada), fizemos com ácido peracético, já dosamos carvão ativado para a remoção de odores e sabores.Trabalhamos muito com cloro gás e também fizemos testes com cloro pastilha” conta Benati, explicando os caminhos que percorreu antes de atingir a estabilidade na qualidade da água distribuída à população. “Teve uma empresa que nos ofereceu um teste e construiu um grande dosador de hipoclorito em pastilha, mas era para a aplicação somente na pós-cloração. Porque esse cloro não reage com matéria orgânica. Foram dois meses de testes, mas o consumo é muito grande e a reposição precisa ser feita diariamente”, contou o químico. 

 

Cerquilho testou muitos sistemas até que…

 

Benati também contou sobre a experiência da utilização do cloro gás, antes de adotar (há cerca de 15 anos) definitivamente o sistema gerador de hipoclorito de sódio da Hidrogeron: “Inicialmente não conseguimos medir a estabilização pelas características do nosso sistema. Após dois ou três anos de utilização (do gerador de cloro in loco da Hidrogeron) observamos que o cloro ficou estável na cidade inteira. Com o cloro gás a gente acertava metade da cidade e a outra ficava com o cloro baixo ou alto.Eliminamos a dosagem de ortopolifosfato e ganhamos confiança em nossa água. Não temos mais esse problema com picos na dosagem de cloro e com isso também abandonamos a correção de pH final”, afirmou Benati. Ao final da sua apresentação, foi a vez do já conhecido bate papo com José Cristiano dos Santos, fundador da Hidrogeron que, diante das revelações do chefe de operações da ETA de Cerquilho, aproveitou para brincar: “Então o gerador de cloro resolveu seu problema de oxidação de metais e a parte microbiológica.e ganhou (a melhoria) do pH de presente, né?”. 

 

Assista o trecho da live de Marcos Benati que aborda os temas deste artigo:

 

Ou assista aqui o vídeo na íntegra.