Desreguladores endócrinos: um risco que não podemos ver a olho nu

Segundo a Endocrine Society, os DEs (desreguladores ou disruptores endócrinos) são “substâncias químicas exógenas [não-naturais], ou mistura de substâncias químicas, que interferem com qualquer aspecto da ação hormonal.” A comunidade científica internacional tem se debruçado sobre o tema para tentar dimensionar com mais precisão suas origens, efeitos no corpo humano e tratabilidade. 

O tema ainda recebe pouca atenção no Brasil, embora muitas evidências da sua nocividade gritem aos nossos olhos. O que se tem comprovado até aqui é que os DEs, quando bloqueiam os receptores endócrinos, podem causar um grande número de males à saúde, mais notavelmente distúrbios de reprodução, comportamentais e do balanço energético.

Um dos temas da apresentação da professora universitária Weruska Brasileiro, durante sua live na Semana da Água, promovida pela Hidrogeron, (confiram o vídeo tratando do tema logo abaixo), os DEs assustam por sua resistência e quase onipresença em corpos de água, e, em especial, nos efluentes: “É comum em nosso esgoto doméstico ter uma quantidade muito alta de desreguladores endócrinos” apontou a pesquisadora, que explica o porquê: “Hoje, uma grande quantidade de mulheres toma anticoncepcionais. As pessoas tomam muitos fármacos, como anti inflamatórios, antibióticos, usam cosméticos e isso (além de muitos outros produtos) causam perturbações em nosso sistema endócrino”.

“É comum em nosso esgoto doméstico ter uma quantidade muito alta de desreguladores endócrinos.” – Weruska Brasileiro

Muitas destas substâncias são persistentes no meio ambiente, acumulam-se no solo e no sedimento de rios, são facilmente transportadas a longas distâncias e o tratamento convencional de esgoto não os remove. Apontando um estudo da Unicamp, Weruska explica: “A concentração deles no esgoto bruto e no esgoto tratado não são muito diferentes. Por isso é necessário um tratamento mais complexo, não apenas o secundário, como fazemos no Brasil” explica a cientista. 

A exposição aos desreguladores endócrinos acontece por meio da água, do solo e ar contaminados, pela ingestão de alimentos e por contato dérmico. Estas substâncias não se deterioram facilmente, não podem ser metabolizadas ou, quando metabolizadas, podem se dividir em compostos ainda mais tóxicos do que a molécula-mãe; dessa forma, mesmo substâncias que foram proibidas há décadas permanecem em níveis elevados no ambiente.

“Mesmo níveis infinitamente baixos de exposição podem causar anormalidades endócrinas ou reprodutivas, particularmente se a exposição ocorre durante uma janela de desenvolvimento crítico. Além disso, podem exercer dose-resposta não tradicional, ou seja, doses baixas podem exercer efeitos mais potentes do que doses mais elevadas” explica a Endocrine Society, a maior organização médica internacional profissional no campo da endocrinologia e metabolismo. 

“Mesmo níveis infinitamente baixos de exposição podem causar anormalidades endócrinas ou reprodutivas, particularmente se a exposição ocorre durante uma janela de desenvolvimento crítico”. Endocrine Society

A Sociedade de Endocrinologia Brasileira vem buscando ativamente uma regulação para diminuir a exposição humana aos desreguladores endócrinos, porém existem algumas dificuldades a serem enfrentadas.  A liberação no ambiente dos desreguladores ocorre como misturas, ao invés de produtos químicos isolados, resultando em efeitos simultâneos que podem agir de forma sinérgica, aditiva ou antagonista, tornando o estudo de suas ações no corpo ainda mais complexo. 

Assista ao trecho da live de Weruska Brasileiro sobre desreguladores endócrinos:

 

Lucas do Rio Verde: 100% do leite materno contaminado

Conhecida por ser uma cidade de economia pujante graças à intensa atividade agrícola, Lucas do Rio Verde é uma cidade rica, com ótimo índice de IDH, mas o uso descontrolado de agrotóxicos, em grande parte trazendo consigo DEs,  cobrou um alto preço.

Uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), realizada entre 2007 e 2014 apontou a contaminação de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 83% dos 12 poços de água potável (nas escolas e na cidade), além de contaminação de 56% das amostras de chuva recolhidas no pátio das escolas. O monitoramento também apontou a presença de resíduos de vários tipos de agrotóxicos em 88% das amostras de sangue e urina dos professores daquelas escolas. Além disso, foi constatada a contaminação com resíduos de agrotóxicos (DDE, Endosulfan, Deltametrina e DDT) de 100% das amostras de leite materno de 62 mães que deram a luz e amamentaram em Lucas do Rio Verde no ano de 2010. 

Declaração de San Antônio

Cerca de 150 cientistas de 22 países assinaram a “Declaração de San Antonio sobre Retardadores de Chamas Bromados e Clorados”, apresentada no 30o Simpósio Internacional sobre Poluentes Orgânicos Persistentes e Halogenados, realizado em 2010 em San Antonio, Texas. A Declaração de San Antonio aborda a crescente preocupação da comunidade científica sobre as propriedades persistentes, bioacumulativas e tóxicas dos retardadores orgânicos de chamas bromados e clorados (BFRs e CFRs, respectivamente) e a exposição dos seres humanos e da vida selvagem a eles, como resultado do uso intensivo.

 

Acesse os estudos completos usados como referência neste artigo: 

Introdução aos disruptores endócrinos (DEs) – Um guia para governos e organizações de interesse público (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia)

 

https://www.endocrino.org.br/media/uploads/PDFs/ipen-intro-edc-v1_9h-pt-print.pdf

 

Disruptores endócrinos no meio ambiente: um problema de saúde pública e ocupacional. (Ministério da Saúde) 

 

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/trabalhador/pdf/texto_disruptores.pdf